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O povo brasileiro é criativo mesmo. É comum ouvir isso de algum transeunte, ou de algum visitante de fora do país. O brasileiro sempre carrega no bolso alguma novidade, alguma mandinga, receita para felicidade, para atrair amor, curar dor de barriga, de calcanhar, para tudo se tem um chá, se tem uma fé, para tudo dá-se um jeito. O brasileiro é também um povo apaixonado, normalmente os criativos são, e namorador. Os solteiros, separados, divorciados e afins vivem às esquinas, nos bares e cafés, nos risos, sorrisos e olhares, na lúdica tentativa de encontrar o amor perfeito. Arrebatador.

Certo dia, fui acompanhar minha mãe até o terminal de ônibus perto de casa e, no caminho, enquanto conversávamos e ríamos (porque a visita dela sempre me traz alegria e boas risadas), ela viu passar, do outro lado da rua, uma senhora. Logo fechou a cara e resmungou: “safada!”. Perguntei o que foi que a senhora, bem apessoada e elegante, parecia-me, tinha feito a ela. “Nada”, disse sem me convencer. “Como nada?”, então ela começou a discorrer sobre o assunto. Disse que nos encontros, nos bailes da terceira idade, as outras senhoras não gostavam dela, pois ela atraía todos os homens, e as outras, assim como minha mãe, ficavam “chupando o dedo”, sem ninguém.

Disse que certa vez a encontrou no terminal de ônibus e depois de muita conversa descobriu seu segredo. “Segredo?”, perguntei. “Sim, segredo!”, disse com o tom de voz mais baixo do que o normal. Para atrair os homens a invejada senhora, antes de sair de casa, passava mel no bico dos seios. “Mel onde?” E dei uma gargalhada surreal assustando inclusive outras pessoas que passavam na rua. Sim, a distinta senhora passava mel e aprendeu a mandinga com a vó dela. Confidenciou isso à minha mãe num momento de rara intimidade, naquela conversa despretensiosa no terminal.

Imaginativa, logo comecei a visualizar a velhinha e seu ritual. Deusducéu, mas será que o mel não colava na roupa? Outro acesso de riso.

Depois de me despedir da minha mãe, voltei pensativa, calada. Chegando à minha morada fui direto à cozinha conferir se ainda havia mel em casa. Ah, o brasileiro, povo tão criativo e cativo nas resoluções do coração.

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